Crepúsculo Admitido

Ela tinha dez anos quando usou drogas pela primeira vez. Aos treze, encontrou outras pessoas que usavam e acabou de afundando mais ainda no vício. Estava querendo descobrir quem era, e sentia que qualquer coisa que pudesse a separar de sua família ou de sua situação em casa era maravilhosa para si, pois lá era um tipo de campo de batalha onde a mãe e a garota brigavam todos os dias. Houve, então, uma grande desavença onde a polícia disse que ela não devia mais ficar lá. Deixou-o.

Sentia-se como um peixe fora d’água na nova escola, pelo menos no início. Se sentia muito só de qualquer forma, afinal, acabou perdendo namorado, irmãos que via todos os dias e as drogas que usava freqüentemente. Estava num estado deplorável, chorando e dizendo que não tinha nada, nada. Sentia que era o fim e não sabia por que ainda acordava todos os dias e por que ainda lidava com tudo aquilo. Estava deprimida e resolveu tirar sua vida no dia seguinte.

Então, nesse ponto, sua avó gritava com ela: Você precisa ir à Igreja! Você precisa ir à Igreja! Está perdendo o controle!”. Ela pensava: “Esse é o último lugar onde eu quero estar, com todas aquelas pessoas felizes que não têm nenhum problema, que acham que sabem todas as respostas quando não sabem de nada… eles não sabem nada de mim ou da minha vida, ninguém é como eu lá”. Entretanto, só para ser ouvida, só para acabar com o assunto, concordou em ir.

Sentou-se bem ao fundo. Estava abraçando a si mesma, e quase deitada na cadeira de tão baixo que sentava. Sucumbida, não ligava para mais nada. Nisso o padre começa a contar a história de sua vida. A cerimônia acabou e, ela, pensativa dirigia-se à porta, quando um homem que nunca havia visto antes agarrou-a pelo braço e disse: “Deus quer que eu fale com você. Ele quer que você saiba que embora você nunca tenha conhecido um pai na Terra, Ele será um pai melhor para você, melhor do que qualquer pai na Terra jamais poderá ser”. Ficou paralisada, estava chorando, querendo sair dali, e só ficava pensando que aquilo era mera coincidência. Ela ainda ia embora, mas ele insistiu, e começou a contar essa história como o padre estava contando, dizendo: “Deus está falando com você, e eu sei que você tem uma grande dor no seu coração que você acha que nada é capaz de curar, mas Deus pode livrá-la disso”. E, finalmente, ele disse: “Você quer se livrar da sua dor?”, ela assentiu dizendo que se mataria no dia seguinte. O estranho replicou: “Deus quer livrá-la dessa dor, você vai deixar? Você pode dar uma chance para Deus livrar você dessa dor?”, respondeu com um “okay”.

Nesse dia compreendeu que realmente existe um Deus e que de fato existe todo esse amor, e é por esse amor que vivemos. Não se trata apenas dela. Não voltaria nem um dia sequer, não mudaria nada. Simplesmente porque não seria quem hoje é. Não seria capaz de reconhecer a mesma dor que passou em outra pessoa, se não a experimentasse por ela mesma. Não saberia reconhecer a doçura do conforto se não tivesse passado por tudo. É por isso que hoje, aquela garota revoltada com tudo e com todos, quer mostrar com suas experiências – e desafios - e de outros, confrontando traumas passados para curar velhas cicatrizes e provar nesse processo que a esperança reverbera mais que o desespero, e pra que as pessoas apáticas e tímidas se levantem para o futuro, tendo perspectivas para lutar e acreditar em algo que seja bom e que transforme o mundo.

Existe aquela página em branco no início de um livro. É a página de dedicatória, onde você escreve uma mensagem para a pessoa que vai receber o livro. Mensagens pessoais que oferecem alguns momentos de clareza antes da história começar. A história de cada um. O momento que você tem com Deus logo antes de nascer, e de se formar no útero da mãe. O mesmo momento que acontece após a morte, quando você se reencontra com Deus. Ele vem tentando nos mostrar de várias formas sua proposta e devemos aceitá-lo, mesmo com uma reviravolta, devemos senti-lo, penetrá-lo e fazer com que outros experimentem.

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